No texto anterior mencionei por alto que ocorre uma certa confusão em relação ao nome que se dá às preferências de um indivíduo. Robbins utiliza um termo um tanto quanto técnico(fim) mas menos revelador, e com freqüência lemos termos substitutivos como gostos, necessidades e desejos. Analisemos agora cada um deles para finalmente voltarmos a discutir o papel das preferências na análise econômica.
Necessidade nos refere a algo que precisa ser feito. Mas, ao analisarmos de perto o comportamento humano, descobrimos que vários atos praticados pelos mesmos não são de forma alguma necessários. Ninguém 'precisa' ter um computador, 'precisa' ver um filme ou 'precisa' jogar futebol. Por outro lado, há certas ações que precisam ser praticadas, para que a vida seja mantida. E se a vida é algo que o homem valoriza, ele precisará satisfazer tais necessidades. Nem sempre o homem valoriza a vida, caso contrário não existiriam casos de suicídio. Mas veremos tais casos mais tarde. O homem precisa se alimentar e se hidratar, proteger-se do frio e do calor, etc. Caso nada disso seja feito, ele perecerá. [Por um lado tais atos são praticados através do reconhecimento de que são importantes. Por outro, a inatividade do homem perante tais situações provoca um desconforto físico e mental que só passa quando age da forma necessitada. Indiretamente, portanto, ele pode satisfazer suas necessidades buscando acabar com o desconforto. O reconhecimento da importância destes lados, aliado a um maior conhecimento do mundo natural, contribui para que essas necessidades sejam satisfeitas de uma maneira mais satisfatória.]
Se necessidade nos refere a uma obrigação, gosto normalmente se associa a algum tipo de frivolidade típica do indivíduo. As pessoas possuem, basicamente, as mesmas necessidades, dificilmente associamos gosto a algo geral. Gosto, ao contrário de necessidade, parecer estar associado a algo que o indivíduo escolhe satisfazer. Achamos estranho que um diabético diga 'eu gosto de tomar injeção de insulina' pois, se pudesse, ele provavelmente não tomaria. O termo gosto, portanto, acaba por excluir ações que são tomadas pois melhoram a situação do indivíduo, mas que deixariam de ser executadas caso a situação do mesmo fosse outra.
Já o termo desejo nos revela uma disposição do agente em agir de modo a obter um determinado bem. Revisitando o exemplo do diabético, já não parece estranho que ele deseje tomar uma injeção de insulina. é um termo que abarca tanto necessidades quanto gostos. Mas ainda assim algo parece faltar. Afinal, por que o diabético deseja a injeção de insulina?
O que está faltando na manifestação do desejo são as preferências. O indivíduo deseja algo porque estas são as suas preferências. Ele é um veículo através do qual as preferências são satisfeitas. A princípio, tal afirmação parece totalmente descabida. Mas uma outra apreciação talvez esclareça o que se quer dizer com isso.
Dizer que o indivíduo age para satisfazer suas preferências significa, em última instância, afirmar que o agente não pode escolher as preferências que possui. Dito de outra forma, as preferências descrevem as escolhas potenciais e efetivas do agente. As preferências não existem fisicamente, mas formam um instrumento analítico de grande capacidade descritiva e explicativa para a ação individual. É verdade que o agente pode tentar modificar as suas preferências e mesmo agir na direção contrária, mas ele o faz porque existem preferências que entram em conflito entre si. O conflito de preferências não significa, de forma alguma, que haja qualquer aspecto de arbitrariedade na ação individual, mas denota que o indivíduo forma uma unidade através da qual as preferências se acomodam. O indivíduo é uma central de decisão.
Um outro aspecto importante diz respeito ao fato do indivíduo conhecer de maneira consciente suas preferências. Não é necessário que ele seja capaz de descrever, em palavras, as suas preferências, mas é preciso que ele saiba identificar quando estas são satisfeitas ou não. Ele precisa ser capaz de reconhecê-las, mas não de articulá-las externamente. A capacidade de descrever as suas próprias preferências certamente influencia na vida do indivíduo(principalmente quando há conflito entre preferências), mas não é condição essencial para que ele tenha preferências.
Para a ciência econômica, importa saber que o indivíduo possui preferências e quais são as conseqüências. As preferências são dadas. Saber como se formam as preferências e de que forma elas podem ser modificadas se encontra no limiar do estudo econômico. A confusão em reconhecer estes dois campos distintos contribui para uma crítica infundada do conhecimento econômico. Analisemos um pouco mais este ponto.
Dissemos anteriormente que o indivíduo possui certas preferências, que são dadas. Fizemos questão de frisar que ele não escolhe as suas preferências e, mesmo que tente agir de maneira contrária às mesmas, isso se dá através da resolução do conflito entre preferências, e não pela ignorância das mesmas. Mas qual a origem das preferências? Nâo nos ocuparemos com isso neste projeto, mas podemos indicar algumas fontes. Certas preferências são biológicas, como já dito anteriormente em relação às necessidades; outras são subprodutos (não) intencionais de hábitos adotados de maneira prolongada(um jogador de futebol que precisa tomar um remédio por conta de um esforço excessivo, por exemplo; uma criança que comeu gafanhotos durante toda a sua infância, etc); algumas simplesmente surgem frutos de experimento do desconhecido. O reconhecimento de que certas preferências conflitam através do entendimento de certos processos(a ingestão de um alimento que aumenta o colesterol)não modificam diretamente as preferências, embora alterem a decisão do indivíduo, pois a satisfação obtida pelo uso de certos bens é alterada. a capacidade de articular as preferências contribui para que tal processo ocorra.
As preferências estudadas pela economia possuem, em geral, três propriedades: são completas, reflexivas e transitivas. São completas porque o indivíduo reconhece suas preferências relativamente umas às outras, reflexivas porque não confunde as preferências entre si e transitivas pois suas preferências não são incoerentes. O ponto chave é a reflexividade: a partir do momento no qual o indivíduo reconhece as suas preferências, é capaz de compará-las de maneira coerente. Só faz sentido tratarmos de preferências que ilustram a ação individual se for possível para o indivíduo agir a partir do reconhecimentos das mesmas. Se suas preferências fossem incoerentes, ele poderia tomar QUALQUER decisão de modo a satisfazê-las, ou seja, suas ações seriam completamente arbitrárias. O mesmo vale no caso em que possui preferências coerentes mas é incapaz de reconhecê-las(por exemplo, num caso de confusão mental resultante do efeito de certas substâncias em seu organismo). Embora sejam casos possíveis em determinadas situações, parece ser razoável imaginar que, em geral, os indivíduos sabem quais são as suas preferências e são capazes de compará-las de maneira coerente. Isso não quer dizer, no entanto, que os casos aqui excluídos não sejam relevantes.
Até aqui procuramos separar as preferências dos meios que as satisfazem. Se as preferências são mantidas estáveis e as qualidades dos bens inalteradas, é possível dizer que o indivíduo prefere bens. Apenas noto novamente que o indivíduo prefere a satisfação obtida pelo uso desses bens, e nâo o bem em si. Esse novo modo de colocar a questão será útil para o entendimento do conceito de curva de indiferença.
Uma curva de indiferença reúne todas as combinações de bens que satisfazem o indivíduo da mesma forma. Por isso o termo indiferença: o indivíduo é indiferente entre consumir uma combinação de bens ou outra. Cada curva de indiferença está associada a um nível de satisfação distinto obtido pelo seu consumo.
Há alguns tipos 'clássicos' de preferências, que dizem respeito a qualidade dos bens. Estes podem ser, basicamente:
-substitutos perfeitos: quando o indivíduo aceita trocar um bem pelo outro a uma taxa constante
-complementos perfeitos: quando o indivíduo só se satisfaz através de uma combinação constante entre os bens
No limite da definição de bem, temos dois casos: este pode ser neutro, ou seja, um objeto cuja presença ou ausência é irrelevante para o indivíduo; ou pode ser um mal, ou seja, a ausência do mesmo é um bem.
O mesmo bem pode se tornar, a partir de um momento, um mal. Há um nível de consumo de um bem no qual se extrai o maior bem-estar possível do mesmo e, a partir dele, o bem-estar extraído começa a diminuir. Este nível é o nível de saciedade, e a partir dele o indivíduo prefere não consumir mais o bem(por exemplo, uma pessoa que, podendo comer uma pizza gigante, não consegue comê-la inteira).
As curvas de indiferença usualmente utlizadas na análise econômica possuem determinadas propriedades por representarem as chamadas preferências bem-comportadas. Em primeiro lugar, as curvas de indiferença descrevem relações entre bens, e nunca entre males(ou entre bens e males). Dito de outra forma, as preferências são monotônicas, o que significa que um indivíduo sempre prefere mais de um bem do que menos dele. Ou seja, as curvas de indiferença retratam situações nas quais os consumos dos bens se encontram antes do nível de saciedade dos mesmos. Faz sentido restringir a análise desta forma? Faz se imaginarmos que, estando interessados em estudar o comportamento humano, situações de saciedade não fornecem nenhuma motivação para a ação, muito embora sirvam para explicar porque o indivíduo não se engaja em perseguir mais daquele bem. Uma outra propriedade importante é a de convexidade. Esta indica que duas cestas de uma mesma curva de indiferença serão menos preferidas que qualquer média ponderada das duas.
Um conceito relacionado ao das curvas de indiferença é o de taxa marginal de substituição, que é nada mais do que a taxa pela qual o indivíduo está disposto a abrir mão de um bem para consumir outro de forma a se manter na mesma curva de indiferença.
Necessidade nos refere a algo que precisa ser feito. Mas, ao analisarmos de perto o comportamento humano, descobrimos que vários atos praticados pelos mesmos não são de forma alguma necessários. Ninguém 'precisa' ter um computador, 'precisa' ver um filme ou 'precisa' jogar futebol. Por outro lado, há certas ações que precisam ser praticadas, para que a vida seja mantida. E se a vida é algo que o homem valoriza, ele precisará satisfazer tais necessidades. Nem sempre o homem valoriza a vida, caso contrário não existiriam casos de suicídio. Mas veremos tais casos mais tarde. O homem precisa se alimentar e se hidratar, proteger-se do frio e do calor, etc. Caso nada disso seja feito, ele perecerá. [Por um lado tais atos são praticados através do reconhecimento de que são importantes. Por outro, a inatividade do homem perante tais situações provoca um desconforto físico e mental que só passa quando age da forma necessitada. Indiretamente, portanto, ele pode satisfazer suas necessidades buscando acabar com o desconforto. O reconhecimento da importância destes lados, aliado a um maior conhecimento do mundo natural, contribui para que essas necessidades sejam satisfeitas de uma maneira mais satisfatória.]
Se necessidade nos refere a uma obrigação, gosto normalmente se associa a algum tipo de frivolidade típica do indivíduo. As pessoas possuem, basicamente, as mesmas necessidades, dificilmente associamos gosto a algo geral. Gosto, ao contrário de necessidade, parecer estar associado a algo que o indivíduo escolhe satisfazer. Achamos estranho que um diabético diga 'eu gosto de tomar injeção de insulina' pois, se pudesse, ele provavelmente não tomaria. O termo gosto, portanto, acaba por excluir ações que são tomadas pois melhoram a situação do indivíduo, mas que deixariam de ser executadas caso a situação do mesmo fosse outra.
Já o termo desejo nos revela uma disposição do agente em agir de modo a obter um determinado bem. Revisitando o exemplo do diabético, já não parece estranho que ele deseje tomar uma injeção de insulina. é um termo que abarca tanto necessidades quanto gostos. Mas ainda assim algo parece faltar. Afinal, por que o diabético deseja a injeção de insulina?
O que está faltando na manifestação do desejo são as preferências. O indivíduo deseja algo porque estas são as suas preferências. Ele é um veículo através do qual as preferências são satisfeitas. A princípio, tal afirmação parece totalmente descabida. Mas uma outra apreciação talvez esclareça o que se quer dizer com isso.
Dizer que o indivíduo age para satisfazer suas preferências significa, em última instância, afirmar que o agente não pode escolher as preferências que possui. Dito de outra forma, as preferências descrevem as escolhas potenciais e efetivas do agente. As preferências não existem fisicamente, mas formam um instrumento analítico de grande capacidade descritiva e explicativa para a ação individual. É verdade que o agente pode tentar modificar as suas preferências e mesmo agir na direção contrária, mas ele o faz porque existem preferências que entram em conflito entre si. O conflito de preferências não significa, de forma alguma, que haja qualquer aspecto de arbitrariedade na ação individual, mas denota que o indivíduo forma uma unidade através da qual as preferências se acomodam. O indivíduo é uma central de decisão.
Um outro aspecto importante diz respeito ao fato do indivíduo conhecer de maneira consciente suas preferências. Não é necessário que ele seja capaz de descrever, em palavras, as suas preferências, mas é preciso que ele saiba identificar quando estas são satisfeitas ou não. Ele precisa ser capaz de reconhecê-las, mas não de articulá-las externamente. A capacidade de descrever as suas próprias preferências certamente influencia na vida do indivíduo(principalmente quando há conflito entre preferências), mas não é condição essencial para que ele tenha preferências.
Para a ciência econômica, importa saber que o indivíduo possui preferências e quais são as conseqüências. As preferências são dadas. Saber como se formam as preferências e de que forma elas podem ser modificadas se encontra no limiar do estudo econômico. A confusão em reconhecer estes dois campos distintos contribui para uma crítica infundada do conhecimento econômico. Analisemos um pouco mais este ponto.
Dissemos anteriormente que o indivíduo possui certas preferências, que são dadas. Fizemos questão de frisar que ele não escolhe as suas preferências e, mesmo que tente agir de maneira contrária às mesmas, isso se dá através da resolução do conflito entre preferências, e não pela ignorância das mesmas. Mas qual a origem das preferências? Nâo nos ocuparemos com isso neste projeto, mas podemos indicar algumas fontes. Certas preferências são biológicas, como já dito anteriormente em relação às necessidades; outras são subprodutos (não) intencionais de hábitos adotados de maneira prolongada(um jogador de futebol que precisa tomar um remédio por conta de um esforço excessivo, por exemplo; uma criança que comeu gafanhotos durante toda a sua infância, etc); algumas simplesmente surgem frutos de experimento do desconhecido. O reconhecimento de que certas preferências conflitam através do entendimento de certos processos(a ingestão de um alimento que aumenta o colesterol)não modificam diretamente as preferências, embora alterem a decisão do indivíduo, pois a satisfação obtida pelo uso de certos bens é alterada. a capacidade de articular as preferências contribui para que tal processo ocorra.
As preferências estudadas pela economia possuem, em geral, três propriedades: são completas, reflexivas e transitivas. São completas porque o indivíduo reconhece suas preferências relativamente umas às outras, reflexivas porque não confunde as preferências entre si e transitivas pois suas preferências não são incoerentes. O ponto chave é a reflexividade: a partir do momento no qual o indivíduo reconhece as suas preferências, é capaz de compará-las de maneira coerente. Só faz sentido tratarmos de preferências que ilustram a ação individual se for possível para o indivíduo agir a partir do reconhecimentos das mesmas. Se suas preferências fossem incoerentes, ele poderia tomar QUALQUER decisão de modo a satisfazê-las, ou seja, suas ações seriam completamente arbitrárias. O mesmo vale no caso em que possui preferências coerentes mas é incapaz de reconhecê-las(por exemplo, num caso de confusão mental resultante do efeito de certas substâncias em seu organismo). Embora sejam casos possíveis em determinadas situações, parece ser razoável imaginar que, em geral, os indivíduos sabem quais são as suas preferências e são capazes de compará-las de maneira coerente. Isso não quer dizer, no entanto, que os casos aqui excluídos não sejam relevantes.
Até aqui procuramos separar as preferências dos meios que as satisfazem. Se as preferências são mantidas estáveis e as qualidades dos bens inalteradas, é possível dizer que o indivíduo prefere bens. Apenas noto novamente que o indivíduo prefere a satisfação obtida pelo uso desses bens, e nâo o bem em si. Esse novo modo de colocar a questão será útil para o entendimento do conceito de curva de indiferença.
Uma curva de indiferença reúne todas as combinações de bens que satisfazem o indivíduo da mesma forma. Por isso o termo indiferença: o indivíduo é indiferente entre consumir uma combinação de bens ou outra. Cada curva de indiferença está associada a um nível de satisfação distinto obtido pelo seu consumo.
Há alguns tipos 'clássicos' de preferências, que dizem respeito a qualidade dos bens. Estes podem ser, basicamente:
-substitutos perfeitos: quando o indivíduo aceita trocar um bem pelo outro a uma taxa constante
-complementos perfeitos: quando o indivíduo só se satisfaz através de uma combinação constante entre os bens
No limite da definição de bem, temos dois casos: este pode ser neutro, ou seja, um objeto cuja presença ou ausência é irrelevante para o indivíduo; ou pode ser um mal, ou seja, a ausência do mesmo é um bem.
O mesmo bem pode se tornar, a partir de um momento, um mal. Há um nível de consumo de um bem no qual se extrai o maior bem-estar possível do mesmo e, a partir dele, o bem-estar extraído começa a diminuir. Este nível é o nível de saciedade, e a partir dele o indivíduo prefere não consumir mais o bem(por exemplo, uma pessoa que, podendo comer uma pizza gigante, não consegue comê-la inteira).
As curvas de indiferença usualmente utlizadas na análise econômica possuem determinadas propriedades por representarem as chamadas preferências bem-comportadas. Em primeiro lugar, as curvas de indiferença descrevem relações entre bens, e nunca entre males(ou entre bens e males). Dito de outra forma, as preferências são monotônicas, o que significa que um indivíduo sempre prefere mais de um bem do que menos dele. Ou seja, as curvas de indiferença retratam situações nas quais os consumos dos bens se encontram antes do nível de saciedade dos mesmos. Faz sentido restringir a análise desta forma? Faz se imaginarmos que, estando interessados em estudar o comportamento humano, situações de saciedade não fornecem nenhuma motivação para a ação, muito embora sirvam para explicar porque o indivíduo não se engaja em perseguir mais daquele bem. Uma outra propriedade importante é a de convexidade. Esta indica que duas cestas de uma mesma curva de indiferença serão menos preferidas que qualquer média ponderada das duas.
Um conceito relacionado ao das curvas de indiferença é o de taxa marginal de substituição, que é nada mais do que a taxa pela qual o indivíduo está disposto a abrir mão de um bem para consumir outro de forma a se manter na mesma curva de indiferença.
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