O conceito de utilidade é uma das maiores fontes de controvérsia entre economistas e não-economistas. Muitas vezes associadas ao utilitarismo, pode-se utilizar a noção de utilidade de maneira descritiva sem, no entanto, derivar qualquer teoria normativa a partir dela.
Inicialmente, a utilidade foi vista como uma medida do bem-estar individual. O consumo de certos bens ou a aprovação de uma determinada lei, por exemplo, aumentaria ou diminuiria o bem-estar do indivíduo. Na verdade, parece ter ocorrido uma confusão entre meios e fins: o indivíduo não se engaja numa determinada atividade porque esta aumenta a sua utilidade, mas esta atividade lhe é útil a medida que lhe auxilia a alcançar determinados fins de modo a satisfazer as suas preferências. Ou seja, se podemos encarar a utilidade como medida, é mais apropriado nos referirmos ao grau de adequação dos meios em relação aos fins do que propriamente ao grau de satisfação que se obtém através do uso de certos meios.
A utilidade como medida da satisfação é também chamada de utilidade cardinal, enquanto a utilidade como medida de adequação dos meios é vista como utilidade ordinal. A diferença substancial entre uma e outra é que, enquanto a primeira 'quantifica' o bem-estar do indivíduo, a segunda apenas 'ordena' a adequação dos meios aos fins desejados. Bens são mais ou menos preferidos a medida que são mais ou menos adequados na satisfação das preferências. Embora o conceito de utilidade cardinal ainda seja um 'fantasma' que freqüentemente ressurge na análise econômica mais descuidada, é possível deixá-lo de lado como uma teoria pioneira mas inadequada no tratamento dos fenômenos que pretende estudar. Com o abandono da teoria de utilidade cardinal, as teorias éticas que pretendem se basear em alguma forma de somatório das utilidades individuais perdem qualquer base científica. Se o utilitarismo só pode ser defendido como um cálculo da felicidade 'social' é uma questão que foge do escopo de nosso estudo. Podemos afirmar, no entanto, que qualquer reformulação do utilitarismo deve levar em conta a impossibilidade de tal cálculo, e deve tentar encontrar as bases da idéia de bem-estar 'social' em outros lugares.
O abandono da utilidade cardinal parece impedir, a primeira vista, qualquer representação funcional da utilidade. Mas há algumas saídas: podemos construir funções de utilidade cuja única qualidade relevante seja a ordenação das preferências, não importando a quantificação obtida. Tais funções podem ser transformadas em outras desde que conservem a ordenação anterior das preferências. Vamos supor 2 escolhas possíveis de consumo, X e Z. Se o indivíduo prefere X a Z, uma função de utilidade que represente tal preferência pode ser dada por F(x,z)= 2X + Z. Ao consumir X, o indivíduo obtém utilidade de 2. enquanto que o consumo de Z fornece utilidade de 1. Esta mesma relação relação de ordenação se mantém, por exemplo, ao reescrevermos a função como f(x,z)= X + 0,5Z. A utilidade obtida por cada consumo passa a ser, respectivamente, de 1 e 0,5. Mas a relação de ordenação se mantém, e é isso que nos importa. A transformação de uma função de utilidade que mantém as mesmas preferências descritas pela função original é chamada de transformação monotônica.
As curvas de indiferença podem ser interpretadas como sendo funções de utilidade que representam um determinado nível de bem-estar relacionado com o uso de um certo nível de bens. A preferência por substitutos ou complementos perfeitos, por exemplo, podem ser escritas na forma das seguintes funções utilidade:
f(x,z) = ax + bz, onde a/b indica a taxa pela qual X pode ser substituído por Z de modo a manter o mesmo nível de bem-estar
f(x,z) = min(ax, bz), onde A e B indicam a proporção com a qual os bens são consumidos
Uma função de utilidade comumente utilizada é a função Cobb-Douglas, que assume a seguinte forma geral:
*f(x,z) = X^aZ^b
Esta função de utilidade é utilizada para representar preferências bem-comportadas.
A partir do conceito de utilidade, podemos reinterpretar a taxa marginal de substituição introduzindo o conceito de utilidade marginal. A utilidade marginal se refere ao nível de bem-estar obtido pelo consumo de mais uma unidade de um bem. Mas o que é a unidade de um bem? Se voltarmos a nossa discussão sobre preferências, afirmamos que é preciso que o indivíduo seja capaz de reconhecer as suas próprias preferências. Ou seja, podemos considerar como constituindo a unidade de um bem o menor nível do mesmo no qual o indivíduo é capaz de reconhecer uma preferência. Por exemplo, se para o indivíduo 'tanto faz' 150 ml ou 151 ml de suco, então 1 ml não constitui para ele uma unidade daquele bem. Podemos concluir, portanto, que a 'unidade' de um bem não é um conceito objetivo, mas sim uma percepção subjetiva do indivíduo. Isso não significa, no entanto, que o conhecimento objetivo não intervenha na formação do conceito de unidade. Por exemplo, se eu não consigo medir com precisão um pedaço de tecido, talvez eu não consiga reconhecer certas preferências que, de outra forma, poderiam ser relevantes.
Mas se a utilidade cardinal foi abandonada, de que forma o conceito de utilidade marginal pode ser relevante para a presente discussão? Ora, como a utilidade marginal se refere ao nível de bem-estar auferido pelo consumo de mais uma unidade do bem, o bem-estar que o indivíduo aufere ao consumir mais uma unidade deste bem precisa ser compensado pela perda em bem-estar ocorrida pela abdicação do consumo de certas unidades de outro bem, se o indivíduo mantém o mesmo nível de bem-estar. A taxa marginal de substituição indica esta relação.
*o sinal de (^) indica potência.
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