quinta-feira, 10 de julho de 2008

4- A produção

Passemos agora à análise dos meios que o homem pode utilizar com vista a atingir seus fins, de modo a satisfazer suas preferências. É preciso lembrar que estamos interessados nos meios escassos, portanto o total de recursos disponíveis ao homem é também limitado. Visto que os meios possuem usos alternativos, estes podem ser usados tanto para satisfazer certas preferências quanto outras.

Como dito anteriormente, os meios também podem ser chamados de bens. Alguns bens estão disponíveis na natureza, outros precisam ser criados. Os bens podem tanto ser escassos quanto abundantes.

Quanto nos referimos a bens criados, não queremos dizer que o homem é capaz de criar matéria ou de inventar forças da natureza, mas sim que este é capaz de manipular as forças da natureza de tal forma que elas satisfaçam as suas necessidades. Podemos dizer que a produção é o processo de adequação das forças da natureza de modo que sejam satisfeitas as preferências do indivíduo.

Há, basicamente, dois tipos de produção: direta e indireta.

A produção direta se dá através do emprego direto da força humana nos recursos naturais disponíveis. Por exemplo, se alguém mergulha no rio e recolhe algas comestíveis, este é um processo direto de produção, visto que o homem se utiliza de seu próprio corpo de modo a obter um bem que, de outra forma, não estaria disponível. Nesse sentido, parece correto dizer que quase tudo que o homem consome é produzido por ele, pois praticamente qualquer bem só se torna disponível a partir de um esforço do homem em obtê-lo. Há, sem dúvida, alguns exemplos de bens não-produzidos como o ar ou a luz do sol, mas perante os bens produzidos estes parecem constituir uma pequena minoria.

Já a produção indireta utiliza objetos naturais modificados pelo homem de tal forma a obter o bem pretendido. Neste caso, o homem emprega a sua força para a produção de um objeto que posteriormente será usado na obtenção de um bem. É indireto justamente pelo fato do esforço humano ser utilizado numa etapa anterior à obtenção do bem. A produção pode ser ainda mais indireta no caso em que estes objetos produzidos pelo homem são utilizados na criação de outros objetos que efetivamente serão utilizados na obtenção de um bem.

Capital é o bem produzido pelo homem (através da manipulação das forças de natureza) utilizado na produção indireta de bens. Ou seja, é um bem intermediário na obtenção do bem final. É o uso do bem que identifica sua qualidade de bem intermediário ou bem final. Um mesmo bem pode ser, portanto, ora capital ora bem final, embora não possa ser os dois ao mesmo tempo.

A capacidade de produção é limitada pelo nível de capital ao qual o homem possui acesso. Explicando melhor: a produção que o homem pode obter através do emprego do capital é limitada pela sua capacidade em utilizar este mesmo capital para produzir bens finais. Um determinado bem intermediário pode até ser usado de uma maneira mais eficiente, mas se o homem ignora esta modo de usar, o mesmo não influi na capacidade de produção. Aumentar o nível de capital sem descobrir formas mais eficientes de usá-lo aumenta a capacidade de produção, muito embora esse aumento da capacidade de produção pode também ser obtido através da descoberta de novas formas de produção. Pode-se criar mais uma unidade da mesma máquina ou criar uma máquina nova. O primeiro é um salto quantitativo, enquanto o segundo é um salto qualitativo. O primeiro afeta diretamente a capacidade de produção, enquanto o segundo modifica o processo de produção. Deixaremos momentaneamente de lado a modificação do processo de produção e nos concentraremos na modificação da capacidade de produção.

O capital não produz por si mesmo. Ele precisa ser usado de forma que possa produzir algo. E precisa ser usado em algo. Ou seja, para que o capital produza, é preciso que alguém o use para modificar algo. O capital pressupõe recursos a serem manipulados e agentes que manipulem esse uso. O homem emprega trabalho para utilizar o capital, que por sua vez só produza na presença de recursos a serem modificados.

Da mesma forma que o capital, o trabalho também pode se desenvolver em duas dimensões distintas. Pode-se tanto aumentar a quantidade de trabalho realizado quanto alterar a qualidade do trabalho executado. Novamente, vamos afastar momentaneamente mudanças qualitativas do trabalho. O mesmo vale para os recursos naturais(por exemplo, uma reserva de um minério pode variar tanto na quantidade existente quanto na qualidade do minério presente).

A qualidade dos meios de produção diz respeito a sua adequação dos mesmos na obtenção dos fins pretendidos. A obtenção destes fins possibilita a satisfação das preferências do indivíduo. A qualidade dos meios, portanto, é relativa às preferências que estes podem atender. Como o mesmo meio pode ser usado para satisfazer mais de uma preferência(produzir mais de um bem final), este apresenta qualidades múltiplas. A qualidade relativa diz respeito a como ele pode contribuir na produção de um determinado bem. A mesma unidade de um meio pode contribuir de maneira distinta na produção de bens finais. Como já foi visto anteriormente, a qualidade de um meio é limitada pelo conheciemnto de como fazer com que um bem seja usado para produzir um bem final. Num determinado momento do tempo, a qualidade dos meios é dada. Só o que varia é a quantidade usada dos mesmos.

Se somente a quantidade usada dos mesmos varia, e a qualidade é dada, isto significa que as diferentes formas de combinação dos meios de tal forma a produzir bens finais também é dada. Ou seja, o modo de produção é dado. A fronteira de possibilidade de produção nos indica o máximo que podemos produzir ao utilizarmos todos os fatores de produção que possuímos. Nós podemos utilizar estes fatores para produzir um mesmo bem, um pouco de cada bem, muito de um único bem e um pouco dos demais, etc. A fronteira apenas nos indica o máximo que podemos produzir ao utilizarmos todos os nossos fatores, dado o atual conhecimento de como usá-los. Não nos indica o que efetivamente será produzido, mas limita o que efetivamente PODE ser produzido.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

3 - A utilidade

O conceito de utilidade é uma das maiores fontes de controvérsia entre economistas e não-economistas. Muitas vezes associadas ao utilitarismo, pode-se utilizar a noção de utilidade de maneira descritiva sem, no entanto, derivar qualquer teoria normativa a partir dela.

Inicialmente, a utilidade foi vista como uma medida do bem-estar individual. O consumo de certos bens ou a aprovação de uma determinada lei, por exemplo, aumentaria ou diminuiria o bem-estar do indivíduo. Na verdade, parece ter ocorrido uma confusão entre meios e fins: o indivíduo não se engaja numa determinada atividade porque esta aumenta a sua utilidade, mas esta atividade lhe é útil a medida que lhe auxilia a alcançar determinados fins de modo a satisfazer as suas preferências. Ou seja, se podemos encarar a utilidade como medida, é mais apropriado nos referirmos ao grau de adequação dos meios em relação aos fins do que propriamente ao grau de satisfação que se obtém através do uso de certos meios.

A utilidade como medida da satisfação é também chamada de utilidade cardinal, enquanto a utilidade como medida de adequação dos meios é vista como utilidade ordinal. A diferença substancial entre uma e outra é que, enquanto a primeira 'quantifica' o bem-estar do indivíduo, a segunda apenas 'ordena' a adequação dos meios aos fins desejados. Bens são mais ou menos preferidos a medida que são mais ou menos adequados na satisfação das preferências. Embora o conceito de utilidade cardinal ainda seja um 'fantasma' que freqüentemente ressurge na análise econômica mais descuidada, é possível deixá-lo de lado como uma teoria pioneira mas inadequada no tratamento dos fenômenos que pretende estudar. Com o abandono da teoria de utilidade cardinal, as teorias éticas que pretendem se basear em alguma forma de somatório das utilidades individuais perdem qualquer base científica. Se o utilitarismo só pode ser defendido como um cálculo da felicidade 'social' é uma questão que foge do escopo de nosso estudo. Podemos afirmar, no entanto, que qualquer reformulação do utilitarismo deve levar em conta a impossibilidade de tal cálculo, e deve tentar encontrar as bases da idéia de bem-estar 'social' em outros lugares.

O abandono da utilidade cardinal parece impedir, a primeira vista, qualquer representação funcional da utilidade. Mas há algumas saídas: podemos construir funções de utilidade cuja única qualidade relevante seja a ordenação das preferências, não importando a quantificação obtida. Tais funções podem ser transformadas em outras desde que conservem a ordenação anterior das preferências. Vamos supor 2 escolhas possíveis de consumo, X e Z. Se o indivíduo prefere X a Z, uma função de utilidade que represente tal preferência pode ser dada por F(x,z)= 2X + Z. Ao consumir X, o indivíduo obtém utilidade de 2. enquanto que o consumo de Z fornece utilidade de 1. Esta mesma relação relação de ordenação se mantém, por exemplo, ao reescrevermos a função como f(x,z)= X + 0,5Z. A utilidade obtida por cada consumo passa a ser, respectivamente, de 1 e 0,5. Mas a relação de ordenação se mantém, e é isso que nos importa. A transformação de uma função de utilidade que mantém as mesmas preferências descritas pela função original é chamada de transformação monotônica.

As curvas de indiferença podem ser interpretadas como sendo funções de utilidade que representam um determinado nível de bem-estar relacionado com o uso de um certo nível de bens. A preferência por substitutos ou complementos perfeitos, por exemplo, podem ser escritas na forma das seguintes funções utilidade:

f(x,z) = ax + bz, onde a/b indica a taxa pela qual X pode ser substituído por Z de modo a manter o mesmo nível de bem-estar

f(x,z) = min(ax, bz), onde A e B indicam a proporção com a qual os bens são consumidos


Uma função de utilidade comumente utilizada é a função Cobb-Douglas, que assume a seguinte forma geral:

*f(x,z) = X^aZ^b


Esta função de utilidade é utilizada para representar preferências bem-comportadas.

A partir do conceito de utilidade, podemos reinterpretar a taxa marginal de substituição introduzindo o conceito de utilidade marginal. A utilidade marginal se refere ao nível de bem-estar obtido pelo consumo de mais uma unidade de um bem. Mas o que é a unidade de um bem? Se voltarmos a nossa discussão sobre preferências, afirmamos que é preciso que o indivíduo seja capaz de reconhecer as suas próprias preferências. Ou seja, podemos considerar como constituindo a unidade de um bem o menor nível do mesmo no qual o indivíduo é capaz de reconhecer uma preferência. Por exemplo, se para o indivíduo 'tanto faz' 150 ml ou 151 ml de suco, então 1 ml não constitui para ele uma unidade daquele bem. Podemos concluir, portanto, que a 'unidade' de um bem não é um conceito objetivo, mas sim uma percepção subjetiva do indivíduo. Isso não significa, no entanto, que o conhecimento objetivo não intervenha na formação do conceito de unidade. Por exemplo, se eu não consigo medir com precisão um pedaço de tecido, talvez eu não consiga reconhecer certas preferências que, de outra forma, poderiam ser relevantes.

Mas se a utilidade cardinal foi abandonada, de que forma o conceito de utilidade marginal pode ser relevante para a presente discussão? Ora, como a utilidade marginal se refere ao nível de bem-estar auferido pelo consumo de mais uma unidade do bem, o bem-estar que o indivíduo aufere ao consumir mais uma unidade deste bem precisa ser compensado pela perda em bem-estar ocorrida pela abdicação do consumo de certas unidades de outro bem, se o indivíduo mantém o mesmo nível de bem-estar. A taxa marginal de substituição indica esta relação.


*o sinal de (^) indica potência.

2-As preferências

No texto anterior mencionei por alto que ocorre uma certa confusão em relação ao nome que se dá às preferências de um indivíduo. Robbins utiliza um termo um tanto quanto técnico(fim) mas menos revelador, e com freqüência lemos termos substitutivos como gostos, necessidades e desejos. Analisemos agora cada um deles para finalmente voltarmos a discutir o papel das preferências na análise econômica.

Necessidade nos refere a algo que precisa ser feito. Mas, ao analisarmos de perto o comportamento humano, descobrimos que vários atos praticados pelos mesmos não são de forma alguma necessários. Ninguém 'precisa' ter um computador, 'precisa' ver um filme ou 'precisa' jogar futebol. Por outro lado, há certas ações que precisam ser praticadas, para que a vida seja mantida. E se a vida é algo que o homem valoriza, ele precisará satisfazer tais necessidades. Nem sempre o homem valoriza a vida, caso contrário não existiriam casos de suicídio. Mas veremos tais casos mais tarde. O homem precisa se alimentar e se hidratar, proteger-se do frio e do calor, etc. Caso nada disso seja feito, ele perecerá. [Por um lado tais atos são praticados através do reconhecimento de que são importantes. Por outro, a inatividade do homem perante tais situações provoca um desconforto físico e mental que só passa quando age da forma necessitada. Indiretamente, portanto, ele pode satisfazer suas necessidades buscando acabar com o desconforto. O reconhecimento da importância destes lados, aliado a um maior conhecimento do mundo natural, contribui para que essas necessidades sejam satisfeitas de uma maneira mais satisfatória.]

Se necessidade nos refere a uma obrigação, gosto normalmente se associa a algum tipo de frivolidade típica do indivíduo. As pessoas possuem, basicamente, as mesmas necessidades, dificilmente associamos gosto a algo geral. Gosto, ao contrário de necessidade, parecer estar associado a algo que o indivíduo escolhe satisfazer. Achamos estranho que um diabético diga 'eu gosto de tomar injeção de insulina' pois, se pudesse, ele provavelmente não tomaria. O termo gosto, portanto, acaba por excluir ações que são tomadas pois melhoram a situação do indivíduo, mas que deixariam de ser executadas caso a situação do mesmo fosse outra.

Já o termo desejo nos revela uma disposição do agente em agir de modo a obter um determinado bem. Revisitando o exemplo do diabético, já não parece estranho que ele deseje tomar uma injeção de insulina. é um termo que abarca tanto necessidades quanto gostos. Mas ainda assim algo parece faltar. Afinal, por que o diabético deseja a injeção de insulina?

O que está faltando na manifestação do desejo são as preferências. O indivíduo deseja algo porque estas são as suas preferências. Ele é um veículo através do qual as preferências são satisfeitas. A princípio, tal afirmação parece totalmente descabida. Mas uma outra apreciação talvez esclareça o que se quer dizer com isso.

Dizer que o indivíduo age para satisfazer suas preferências significa, em última instância, afirmar que o agente não pode escolher as preferências que possui. Dito de outra forma, as preferências descrevem as escolhas potenciais e efetivas do agente. As preferências não existem fisicamente, mas formam um instrumento analítico de grande capacidade descritiva e explicativa para a ação individual. É verdade que o agente pode tentar modificar as suas preferências e mesmo agir na direção contrária, mas ele o faz porque existem preferências que entram em conflito entre si. O conflito de preferências não significa, de forma alguma, que haja qualquer aspecto de arbitrariedade na ação individual, mas denota que o indivíduo forma uma unidade através da qual as preferências se acomodam. O indivíduo é uma central de decisão.

Um outro aspecto importante diz respeito ao fato do indivíduo conhecer de maneira consciente suas preferências. Não é necessário que ele seja capaz de descrever, em palavras, as suas preferências, mas é preciso que ele saiba identificar quando estas são satisfeitas ou não. Ele precisa ser capaz de reconhecê-las, mas não de articulá-las externamente. A capacidade de descrever as suas próprias preferências certamente influencia na vida do indivíduo(principalmente quando há conflito entre preferências), mas não é condição essencial para que ele tenha preferências.

Para a ciência econômica, importa saber que o indivíduo possui preferências e quais são as conseqüências. As preferências são dadas. Saber como se formam as preferências e de que forma elas podem ser modificadas se encontra no limiar do estudo econômico. A confusão em reconhecer estes dois campos distintos contribui para uma crítica infundada do conhecimento econômico. Analisemos um pouco mais este ponto.

Dissemos anteriormente que o indivíduo possui certas preferências, que são dadas. Fizemos questão de frisar que ele não escolhe as suas preferências e, mesmo que tente agir de maneira contrária às mesmas, isso se dá através da resolução do conflito entre preferências, e não pela ignorância das mesmas. Mas qual a origem das preferências? Nâo nos ocuparemos com isso neste projeto, mas podemos indicar algumas fontes. Certas preferências são biológicas, como já dito anteriormente em relação às necessidades; outras são subprodutos (não) intencionais de hábitos adotados de maneira prolongada(um jogador de futebol que precisa tomar um remédio por conta de um esforço excessivo, por exemplo; uma criança que comeu gafanhotos durante toda a sua infância, etc); algumas simplesmente surgem frutos de experimento do desconhecido. O reconhecimento de que certas preferências conflitam através do entendimento de certos processos(a ingestão de um alimento que aumenta o colesterol)não modificam diretamente as preferências, embora alterem a decisão do indivíduo, pois a satisfação obtida pelo uso de certos bens é alterada. a capacidade de articular as preferências contribui para que tal processo ocorra.

As preferências estudadas pela economia possuem, em geral, três propriedades: são completas, reflexivas e transitivas. São completas porque o indivíduo reconhece suas preferências relativamente umas às outras, reflexivas porque não confunde as preferências entre si e transitivas pois suas preferências não são incoerentes. O ponto chave é a reflexividade: a partir do momento no qual o indivíduo reconhece as suas preferências, é capaz de compará-las de maneira coerente. Só faz sentido tratarmos de preferências que ilustram a ação individual se for possível para o indivíduo agir a partir do reconhecimentos das mesmas. Se suas preferências fossem incoerentes, ele poderia tomar QUALQUER decisão de modo a satisfazê-las, ou seja, suas ações seriam completamente arbitrárias. O mesmo vale no caso em que possui preferências coerentes mas é incapaz de reconhecê-las(por exemplo, num caso de confusão mental resultante do efeito de certas substâncias em seu organismo). Embora sejam casos possíveis em determinadas situações, parece ser razoável imaginar que, em geral, os indivíduos sabem quais são as suas preferências e são capazes de compará-las de maneira coerente. Isso não quer dizer, no entanto, que os casos aqui excluídos não sejam relevantes.

Até aqui procuramos separar as preferências dos meios que as satisfazem. Se as preferências são mantidas estáveis e as qualidades dos bens inalteradas, é possível dizer que o indivíduo prefere bens. Apenas noto novamente que o indivíduo prefere a satisfação obtida pelo uso desses bens, e nâo o bem em si. Esse novo modo de colocar a questão será útil para o entendimento do conceito de curva de indiferença.

Uma curva de indiferença reúne todas as combinações de bens que satisfazem o indivíduo da mesma forma. Por isso o termo indiferença: o indivíduo é indiferente entre consumir uma combinação de bens ou outra. Cada curva de indiferença está associada a um nível de satisfação distinto obtido pelo seu consumo.

Há alguns tipos 'clássicos' de preferências, que dizem respeito a qualidade dos bens. Estes podem ser, basicamente:

-substitutos perfeitos: quando o indivíduo aceita trocar um bem pelo outro a uma taxa constante

-complementos perfeitos: quando o indivíduo só se satisfaz através de uma combinação constante entre os bens

No limite da definição de bem, temos dois casos: este pode ser neutro, ou seja, um objeto cuja presença ou ausência é irrelevante para o indivíduo; ou pode ser um mal, ou seja, a ausência do mesmo é um bem.

O mesmo bem pode se tornar, a partir de um momento, um mal. Há um nível de consumo de um bem no qual se extrai o maior bem-estar possível do mesmo e, a partir dele, o bem-estar extraído começa a diminuir. Este nível é o nível de saciedade, e a partir dele o indivíduo prefere não consumir mais o bem(por exemplo, uma pessoa que, podendo comer uma pizza gigante, não consegue comê-la inteira).

As curvas de indiferença usualmente utlizadas na análise econômica possuem determinadas propriedades por representarem as chamadas preferências bem-comportadas. Em primeiro lugar, as curvas de indiferença descrevem relações entre bens, e nunca entre males(ou entre bens e males). Dito de outra forma, as preferências são monotônicas, o que significa que um indivíduo sempre prefere mais de um bem do que menos dele. Ou seja, as curvas de indiferença retratam situações nas quais os consumos dos bens se encontram antes do nível de saciedade dos mesmos. Faz sentido restringir a análise desta forma? Faz se imaginarmos que, estando interessados em estudar o comportamento humano, situações de saciedade não fornecem nenhuma motivação para a ação, muito embora sirvam para explicar porque o indivíduo não se engaja em perseguir mais daquele bem. Uma outra propriedade importante é a de convexidade. Esta indica que duas cestas de uma mesma curva de indiferença serão menos preferidas que qualquer média ponderada das duas.

Um conceito relacionado ao das curvas de indiferença é o de taxa marginal de substituição, que é nada mais do que a taxa pela qual o indivíduo está disposto a abrir mão de um bem para consumir outro de forma a se manter na mesma curva de indiferença.

terça-feira, 8 de julho de 2008

1-Definição de economia

Provavelmente há centenas de definições da ciência econômica, formulada por cada um dos seus grandes nomes. Curiosamente, parece nâo haver tanto cuidado por parte de outros cientistas em definir a sua área de estudo. Os biólogos simplesmente estudam o fenômeno a que chamamos de vida, os físicos estudam praticamente qualquer coisa que envolva o mundo natural, os químicos se preocupam com as propriedades das substâncias, a astronomia trata dos corpos celestes, etc.

Certamente há uma dificuldade adicional quando se estuda o homem, pois o nosso interesse em estudar a humanidade parece partir de um viés bastante claro: nós próprios somos seres humanos, e a curiosidade em saber sobre nós mesmos, aliada a conseqüência prática deste conhecimento para a nossa vida, nos torna um objeto de estudo bastante especial. A rocha não conhece as suas propriedades, portanto não pode mudar o seu comportamento. Mas o homem, ao ter conhecimento em relação ao que o constitui, pode usar este conhecimento para alterar o seu comportamento. É verdade que o conhecimento sobre qualquer coisa afeta o comportamento humano: saber, por exemplo, que certas substâncias evitam o desgaste do solo, possibilitando um melhor aproveitmanento para a agricultura, ou que um elemento resiste mais ao calor e pode ser utilizado em certos processos industriais, claramente afeta as nossas decisões. No entanto, não é preciso ser nenhum gênio para perceber que o conhecimento sobre si mesmo é de um tipo especial dos demais.

Em última instância, o conhecimento sobre si mesmo limita até onde podemos conhecer(afinal, o ser que conhece não pode conhecer tudo, pois se conhecesse completamente a si mesmo, seria ele mesmo o próprio conhecimento, e não um ser que conhece) e até onde podemos modificar nosso próprio comportamento baseado neste conhecimento. Admitir até onde podemos conhecer é um reconhecimento de nossa ignorância, mas há um enorme espaço entre o conhecimento atual e o conhecimento possível, fonte inesgotável de debates em relação até onde podemos modificar nosso próprio comportamento. O progressivo avanço da engenharia genética, por exemplo, torna possível modificar certos elementos que até décadas atrás considerávamos como impensáveis. Mas é um avanço que se dá através do reconhecimento de um processo sobre o qual nós não temos inteira autonomia, e que tentamos modificar marginalmente. Ou seja, o avanço do conhecimento se dá através do reconhecimento de nossa ignorância.

É por isso que o estudo da economia se torna tão problemático. O estudo do homem coloca limites até onde podemos conhecer e até onde podemos modificar nosso comportamento. Se há leis que regem o comportamento humano, não podemos agir de modo a ignorar tais leis. Ou, melhor dizendo, não podemos agir de tal modo e conseguir resultados distintos daqueles que são previstos*. Este é um ponto que muitas vezes é confundido: as leis que regem o homem não dizem que ele não é capaz de tentar não segui-las, apenas que ele não alcançará os resultados pretendidos. As pessoas podem tentar sobreviver a quedas do décimo andar, mas somente uma conjunção muito improvável de fatores salvará a pessoa**.

Não me parece que o estudo do homem constitua, portanto, uma área de estudo própria, mas sim um objeto de estudo próprio. Por isso não há uma 'humanologia', mas sim um conjunto de 'ciências humanas'. O homem faz parte, ao mesmo tempo, do mundo físico, do mundo biológico, do mundo químico, etc. Mas nenhum dessas matérias estuda somente o homem. Temos a medicina, que é o estudo do aspecto biológico do homem, mas que mesmo assim é usualmente desconsiderada como ciência humana, o que me parece um mero capricho. Pode-se dizer, como alguns gostariam de dizer, que as ciências humanas estudam apenas os aspectos próprios do homem, e portanto a biologia, por ser um elemento que ele compartilha com os demais seres vivos, não seria propriamente uma ciência humana.

Muito embora tal explicação pareça fazer sentido, ela não se sustenta a uma análise mais cuidadosa. Vejamos, por exemplo, a sociologia. Será que o homem é o único ser que se organiza em sociedade? Ora, há sociedades de abelhas e formigas, e não seria implausível imaginar que a observação da sociedade de insetos tenha inspirado, via o caminho da biologia, o estudo das sociedades humanas. De fato, os antigos trabalhos (pré)sociológicos estão embebidos de observações racialistas*** e que tentam explicar a organização social através das diferenças genéticas**** entre os povos. A linguagem também é outro elemento que não é próprio do homem. Mesmo a idéia de que o homem é o único animal que produz cultura não é absolutamente verdadeira.

De qualquer forma, parece claro que o homem é o objeto de destaque destas ciências, pois é o ser que possui tais dimensões(sociedade, língua, cultura, etc.) desenvolvidas a um nível de complexidade nem remotamente igualado por outros seres. E o mesmo acontece com o campo da economia.

Uma das definições mais famosas da economia foi dada pelo economista inglês Lionel Robbins nos anos 30, que esreveu:

"Economics is a science which studies human behavior as a relationship between ends and scarce means which have alternative uses."

Vamos analisar alguns aspectos dessa definição. Já vimos que, na verdade, a economia, assim como outras ciências humanas, não estuda somente o homem, mas prioritariamente o homem. Vamos nos concentrar, aqui também, no homem.

A economia estuda o comportamento humano. O que significa isso? Significa que a economia estuda atos que o homem pode controlar. Dito de outra forma, talvez mais apropriada, são atos que o homem pode submeter ao seu controle. Vamos rever o exemplo da queda. O homem pode se jogar de um prédio, ou tropeçar e cair. No primeiro caso, ele poderia ter se jogado ou não. No segundo, ele não tinha esta opção. Obviamente, acidentes fazem parte da vida e o homem pode reagir a eles. Mas, quando acontecem, este perde inteiramente o controle sobre eles. Da mesma forma, a respiração, os batimentos cardíacos e mesmo o processo digestivo são movimentos corporais involuntários aos quais o homem nada pode fazer a respeito. Novamente, sabendo disso, ele pode tomar providências a respeito, mas não pode evitar que eles aconteçam(ou, em certas ocasiões, que deixem de acontecer). Somente sob o segundo aspecto é que o comportamento humano entra em cena.

Vamos agora analisar a segunda parte desta sentença, que é a mais importante e que distingue a ciência econômica das demais ciências humanas. Estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos que possuem usos alternativos. O que isso significa? Significa que, como o próprio Robbins escreveu, economia é sobre "an aspect of behavior (based on scarcity), not about certain kinds of behavior", ou seja, qualquer comportamento humano pode ser submetido ao estudo da economia. É o aspecto estudado que distingue a economia. Basicamente, são dois aspectos importantes aqui: os meios que podem ser utilizados para atingir determinados fins são escassos e possuem usos alternativos. O fato dos meios serem escassos significa que eles não são em número suficiente para atingir todos os fins. O fato de terem usos alternativos indica que os mesmos meios podem ser utilizados para satisfazer a mais de um fim.

Acabamos de descrever o problema básico da economia: o homem possui fins que deseja atingir, e tem acesso a recursos que não são suficientes para satisfazê-los. Ele pode utilizá-los para atingir mais de um fim. Cabe a ele, portanto, decidir a forma pela qual vai utilizá-los de tal forma a satisfazer os seus fins. Não precisamos mais do que isso para entendermos do que se trata a economia. Mas ainda cabe algumas qualificações.

Robbins chama de fins aquilo que os economistas usualmente chamam de preferências. Mais propriamente, os indivíduos satisfazem as suas preferências atingindo determinados fins. A linguagem moderna pode parecer um tanto estranha, visto que não são os indivíduos que são satisfeitos, mas as suas preferências. Os indivíduos são intermediários pelos quais as preferências são satisfeitas. De qualquer forma, estas qualificações serão melhor entendidas posteriormente. Outros termos que são freqüentemente usados são necessidades, desejos e gostos. Cada um deles apresenta um problema relacionado ao seu uso comum. Mas não é tão importante assim de forma que seu uso sejam errôneos, desde que entendido o sentido no qual estão sendo empregados.

Nem todos os meios são escassos. E a escassez não é uma qualidade inerente aos meios. Mas o que são meios? Meios são recursos que podem ser utilizados tendo em vista atingir determinados fins. São objetos, materiais ou imateriais. Nem todo objeto é um meio, visto que nem todos eles podem ser utilizados para atingir determinados fins. Novamente, ser meio não é uma qualidade inerente de um objeto. Este pode vir a ser um meio, ou mesmo deixar de sê-lo.

Por exemplo, as pessoas precisam respirar para se manterem vivas. Atualmente o ar é um meio para atingir o fim de respirar. O ar não é um meio escasso, pois há ar suficiente para satisfazer a necessidade de respirar. Mas isso não significa que ele nunca possa ser escasso. O popularmente chamado 'ar puro', por exemplo, pode ser um bem escasso em cidades muito poluídas e, embora não possa ser apropriado(veremos sobre isso mais adiante), a sua presença pode afetar a desejabilidade de outros bens(um apartamento pode valer mais ou menos se localizado numa zona da cidade mais ou menos poluída).

Escrevi no parágrafo anterior o termo bem, que é o termo usual para o que Robbins chama de meio. Embora nâo haja nenhum problema com o termo bem, é preciso deixar claro que os bens são meios de satisfazer preferências, e não a própria preferência. Tal diferenciação é muitas vezes esquecida quando ingerimos o bem, pois parece que desejamos o bem, quando na verdade estamos interessados em suas propriedades.

Quando um bem perde as propriedades que satisfazem as nossas preferências, ele deixa de ser um bem e se torna um objeto qualquer. Normalmente um bem possui mais de um uso, como bem ressaltou Robbins, e por isso é muito difícil que um objeto perca completamente todos os seus usos. De qualquer forma, é importante ressaltar que ele pode perder um deles(um guarda-chuva rasgado perde a qualidade de evitar o contato direto com a chuva). Da mesma forma que os bens podem perder, eles podem ganhar novos usos. Tecnologia é simplesmente a técnica através da qual os bens podem ser usados de forma a satisfazer determinados desejos. Se distingue do conhecimento científico, que pode ou não ter aplicação. O avanço da tecnologia aprimora e acresce usos aos bens em questão, ou mesmo torna possível que objetos sejam usados como bens.

Já temos aqui um quadro bastante desenvolvido. Mas tratamos basicamente da ação individual, e o homem vive em sociedade. De que forma o acréscimo de outros homens modifica o quadro aqui traçado? Há duas dimensões que se modificam: a de conflito e cooperação. Se os meios são escassos, haverá conflito em relação a posse dos mesmos. Esse conflito precisa ser resolvido de alguma forma. E, resolvido este conflito, surge a possibilidade de cooperar de tal forma a obter um resultado melhor para ambos. Entramos, aqui, no terreno das instituições que regem a interação econômica. Elas definem posse e uso permitidos de certos recursos, da mesma forma que possibilitam ou proíbem interações entre os indivíduos. Diferentes regras terão conseqüências distintas. Cabe a ciência econômica clarificar as diferentes conseqüências resultantes da adoção de diferentes regras.

Mas as regras não caem do céu. Elas são produzidas e modificadas de alguma forma. E o indivíduo pode usar este processo de produção e modificação de regras, comumente conhecido como processo político, para atingir os seus fins. Ou seja, a política pode servir como um meio. E, assim como outros meios, a política possui vários usos alternativos. Novamente, o papel do economista é elucidar como se dá o uso do processo político.

Inicialmente nosso estudo se concentrará no tema básico retratado por Robbins. Mas é bom ter em mente que essas duas dimensões, a institucional e a política, são essenciais para entendermos a ciência econômica.


*aqui estamos admitindo que a nossa previsão é correta. Esta é uma outra confusão recorrente: nosso conhecimento sobre um evento pode ser equivocado, e portanto os efeitos ocorridos serem distintos dos efeitos previstos. Ainda assim, isso não muda o fato de que o homem está submetido a leis, mas sim que ele não possui um conhecimento perfeito de tais leis(pois, como dito anteriormente, seu conhecimento é sempre limitado). Aquilo que acontece na realidade é absolutamente necessário que aconteça, mas não é necessário que as nossas previsões sobre a realidade se realizem.

**obviamente, as pessoas não morrem porque caem do décimo andar, mas sim devido aos danos usualmente sofridos por conta de uma queda como essas. Por isso a idéia de que a sobrevivência de uma queda se constituiria como 'milagre' não faz muito sentido quando a pessoa que sofreu o acidente não apresenta tais danos, que são prováveis mas não necessários.Um evento improvável não é um evento impossível.

***racialismo é o reconhecimento de que existem diferenças genéticas entre os diversos agrupamentos humanos, e que estas diferenças são significativas e explicam diferenças comportamentais entre esses agrupamentos. Utilizo este termo para diferenciar tais autores da defesa de leis desfavoráveis a tais grupos ou até mesmo seu extermínio, muitas vezes associada a palavra racismo.


****Muito embora tal conhecimento científico não existisse na época desses trabalhos, a suspeita de que tais mecanismos operassem era reconhecida.

Introdução

Toda apresentação do conhecimento acumulado de uma área do saber implica, necessariamente, numa simplificação do que se conhece até então. É através da aplicação deste conhecimento que podemos nos aprofundar nestas discipinas. Mas para que possamos chegar neste momento, é preciso que tenhamos um conhecimento prévio das noções básicas de uma determinada área.

Por isso são duplamente infundadas as acusações feitas contra a ciência econômica, a saber, que ela teria uma visão simplista e, portanto, errônea, dos fenômenos que analisa. Em primeiro lugar, critica-se a ciência econômica por conta de seu aspecto externo e não pelo seu processo de análise. Mas isso seria verdade em qualquer campo: o aspecto externo da física, da química e da biologia, quando ignorada a aplicação dos seus conceitos em pesquisas e análises, também pode parecer simplista e incompleto. Somente quando se utiliza os conceitos básicos de cada disciplina é que podemos ter uma noção de sua extensão e significado. Numa etapa anterior, porém, este conhecimento é sempre parcial. Em segundo lugar, o conhecimento da realidade é distinto da mesma, portanto a sensação de que 'algo escapa' de nossa análise estará sempre presente. Não temos um conhecimento perfeito dos fatos. Nossas teorias serão sempre mais simples que a realidade. Mas isso não é razão para abandonar a teoria.

O objetivo deste projeto é tornar acessível uma apresentação do conhecimento mais elementar da ciência econômica, o que evidentemente não corresponde ao melhor conhecimento possível desta mesma ciência e, mesmo que fosse o caso, ainda assim não teríamos um conhecimento perfeito da realidade econômica. É natural que surjam dúvidas a medida que os conceitos sejam expostos, visto que a simplificação da apresentação deixa certas questões sugeridas sem resposta. Procurarei sempre deixar indicado as respostas 'ausentes' no meu texto e, na medida do possível, indicar textos que tratem do assunto.

Utilizarei como textos-base alguns livros bastante famosos e que usualmente são utilizados por faculdades de economia ao redor do mundo. Apontarei, nos artigos, os livros que me serviram de base, para que as pessoas possam conferir por conta própria o material utilizado por mim. O meu objetivo, no entanto, não é o de ser o mais fiel possível aos textos, mas sim me utliizar da apresentação de outros autores que reconhecidamente obtiveram sucesso em comunicar o conhecimento da economia.

Espero que este projeto alcance o seu objetivo e seja útil para as pessoas que o acompanhem.